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Luis Fernando Manassi Mendez

Sou de Quaraí

Sou de Quaraí e não nego.  Cidade dos três quês. Quaraí, Querência Querida. Quaraí foge à regra em termos lingüísticos. Rio de Janeiro, com toda inspiração poética e musical, não enraizou nem uma metonímia, nem uma aliteração que se igualasse às suas iniciais. Quaraí tem esse predicado. O vivente que vai pra Quaraí sai de lá com um novo jeito de falar, uma transformação fonética incrível. É difícil alguém que more ou tenha crescido em Quaraí e que não pegue o sotaque grosso, de arrastar a língua nos dentes.

Sou de Quaraí, cresci e linguagem nativa com esta nunca vi. A ligação torna um ar poético, mas não foge nada à regra. Vivi em Quaraí há mais de vinte anos, e esta cidade tem dotes peculiares. As coisas lá acontecem, e tu espalhas pra outros lugares o ocorrido e ninguém entende o que é. A palavra bacudo, por exemplo. Bacudo é um termo gauchês, da mesma acepção que bagual. No entanto, alegretenses, uruguaianenes, quaisquer outros enses, muito dificilmente ouviram falar do termo bacudo. Bacudo vem de Quaraí. Porque lá nascem os dotes da lida campeira.

Quaraí tem diferença climática. Lá fazem as temperaturas mínimas no estado que podem durar semanas e mais semanas. Quaraí é uma terra macanuda. Sou de Quaraí e não nego.

Em Quaraí tu vê jogo de futebol de graça. Não paga nada, fica escorado na ponte, acha um lugarzinho ali e vê o jogo, os eucaliptos em seus montantes, e não paga nada. Mas são jogos de qualidades, times de Montevideu que vinham jogar lá embaixo da ponte.

Em Quaraí tem muita influência do castelhanismo, los hermanos cruzam a ponte do outro lado como sucuri enredada em tronco de árvore. A transição internacional em Quaraí é forte, basta cruzar a ponte, não paga pedágio, e vê o rio.

As conversas nos ônibus municipais não têm nada de igual. Lá saem relatos da vida inteira, gente faceira e fuxico da vizinhança. O ônibus em Quaraí há certo tempo, tornou-se o semanário ambulante do povo.

Estudante de Jornalismo



Escrito por Repórter Fonte Dinâmica às 22h44
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     Discutindo futebol

   Discutir futebol se torna enfadonho. A conversa sempre acaba no mesmo ponto: indissolução. Ainda mais aqui no Rio Grande do Sul, onde a rivalidade grenal é brutal, fugindo dos padrões conforme a polidez. Falar de futebol é a mesma coisa que apertar a mesma tecla do controle remoto a vida toda. Ligar o Power para iniciar o bate-boca, e desligá-lo para tentar amenizar os ânimos. Mas futebol poderia ser menos nocivo, se até então fosse levado o aspecto cultural, e não só a visão apaixonada de torcedor.

   Discutir tabelas do campeonato deve ser a mesma coisa que fofocar sobre a vida alheia. É irrelevante e para nossa vida, no entanto interessante para nós. Queria apostar com todas as cartas, uma conversa diferente sobre futebol. Fugir da práxis e ir a outros termos da questão. Discutirmos a função do futebol na sociedade deve ser tão enjoado aos apaixonados quanto discutir política internacional do PT.  

   O futebol gera usufruto ilusório. Quero dizer que ele ao mesmo tempo em que alegra as pessoas, tira delas o básico para podê-las torná-las viciadas no seu ciclo vicioso. Quem irá se interessar em discutir porque é mais fácil para um assalariado ir assistir nas gerais seu time, do que ir a uma livraria? O preço inacessível do ingresso não é mais obstáculo. Têm cambistas. Cobram aproximadamente 90% do valor do ingresso.Eles logo se esgotam.

    Seria o mesmo que comprar três livros de 325 páginas, de brochura, capa dura, dos mais vendidos. A explicação é cultural. É mais do que social, porque na verdade a classe social não indica as preferências, mas sim a cultura, o meio onde se vive. Somos influenciados.  

    Se levantássemos a questão, o quanto ganha um operário que trabalhe um dia inteiro em condições insalubres, tirando um mísero tostão para sobrevier, e quanto arrecadam um jogador de futebol, para chutar a bola, recebendo seus astronômicos milhões de reais, quando não euros, tal assunto não seria tão discutível quanto discutir a troca de um jogador de um clube para outro.  

    Nesta questão, o futebol em si seria impopularizado, já que ele é dos temas mais comentados no dia-a-dia. E o operário teria anseio em discutir sua vida aviltada em relação ao alto padrão de vida de um jogador? Ele quer mais é comprar ingressos. Para ele, a paixão de gritar, de sofrer, chorar, se angustiar, fala mais altos do que os conceitos de Lévi Strauss, claro que há exceções.

 

 

 



Escrito por Repórter Fonte Dinâmica às 16h00
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